
Ando cansada de ouvir falar na disponibilidade das mulheres, ou da falta dela, e de ouvir desculpas relativamente à posição social da mulher.
As mulheres têm tanto ou mais direito de estarem na escola, nas faculdades, nas empresas, na política, nas acções sociais, e este direito não lhes advêm por serem mulheres, mas por assim o desejarem, por trabalharem para obter o que querem, pelo mérito e pelo empenho que demosntram em tudo o que se propõem.
Já agora, para os que não estão a par, e de acordo com o Relatório sobre o Progresso da Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens no Trabalho, no Emprego e na Formação Profissional as mulheres em Portugal trabalham em média mais 13 horas que os homens, e porquê, porque em casa a igualdade continua a não existir e as tarefas domésticas assim como a educação dos filhos ou os cuidados com os idosos recaiem quase sempre nas mesmas.
No final do ano passado, aquando da apresentação do IV Plano Nacional para a Igualdade, o país foi confrontado com a realidade as mulheres recebem salários mais baixos que os homens em 9.4%, em 2007 esta diferença era de 8.3%, o que significa que em termos de igualdade de oportunidades em salários a situação tem vindo a piorar, e na minha opinião a crise vai acentuar ainda mais esta discrepância. Estes valores são de 18% se tivermos em conta a média europeia. Nos conselhos de administração de grandes empresas por exemplo (PSI 20), verifica-se que apenas existem 2.8% de mulheres a exercerem estes cargos e apenas uma presidente. França, Espanha e Noruega criaram já uma política de quotas nas empresas para combater esta realidade.
Sou contra as quotas, sempre fui, mas infelizmente entendo que estas são necessárias, e porquê, pelo mesmo discurso de disponibilidade que tenho ouvido vezes sem conta nos últimos 10 anos, há sempre uma desculpa para não pôr a mulher certa no lugar certo, em última análise, porque é mulher e terá certamente menos disponibilidade para viajar ou para ficar a trabalhar até tarde, porque têm filhos ou tarefas domésticas, e claro não devem ter maridos em casa, porque estes estão normalmente fora!
Por exemplo, a participação das mulheres na politica tem vindo a aumentar por via das quotas - o que gerou imensa polémica num mundo que é obviamente de homens e que muito provavelmente se sentem ameaçados, é a única razão que antevejo – ainda assim temos apenas 17.9% de mulheres em cargos de ministro ou secretário de estado e o relatório do Observatório de Género/Sistema Integrado de Informação e Conhecimento, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, refere a "baixa participação de mulheres, tanto em cargos governativos, como em cargos parlamentares, não só a nível nacional, como também regional e local", porque embora pese o compromisso das quotas, a verdade é que as mulheres muito raramente são posicionadas em lugares elegiveis.
Em 2010 pelo menos 43 mulheres foram assassinadas vitimas de violencia domestica.
Em Maio foi apresentado o relatório anual da Direcção-Geral da Administração Interna, neste relatório ficamos a saber que existem por hora 4 queixas de violência doméstica e que em 85% dos casos a vitima é mulher. Este é um problema que se reflete naturamente nas crianças, 44% das agressões foram presenciadas por menores, cicatrizes que marcam para a vida, infelizmente as queixas apresentadas, estimam-se sejam apenas 50% das ocorrências.
Já ouvi dizer que qualquer dia será preciso estabelecer quotas para a participação dos homens, seja na política, nas empresas ou nas universidades.
Claro que só pode dizer isto quem não conhece os factos, quem nunca se sentiu discriminado por esperar um filho, por exemplo, pois a verdade é que embora se apele ao não envelhecimento da população, ainda são muitas as mulheres que se vêem discriminadas por ficarem grávidas.
A hipocrisia é muita, e a igualdade entre sexos um longo caminho a percorrer.