segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Life is a bitch and then you die


A rotina é como uma erva daninha, entranha-se e torna-se muito difícil de a arrancar.

De segunda a sexta, acordo, trato de mim, trato do Alexandre, vou deixá-lo na creche, vou para o trabalho. Saio às 6, vou buscar o Alexandre, faço o jantar, arrumo qualquer coisa em casa, sento-me em frente à televisão, são 11 horas, estou exausta vou deitar-me. Num dia bom, ou seja um daqueles que sai da rotina, às 6 em vez de ir buscar o Alexandre vou para o meu segundo emprego, estranhamente é uma fuga, porque me dá tempo para mim.

Não ter dinheiro é cansativo, é um facto que não traz felicidade ser rico, longe disso, mas facilita a vida

A creche do Alexandre termina este ano, vou ter de lhe arranjar um novo poiso, mas o sítio que gostamos custa 550€ por mês, ora se a isso juntarmos a “renda” da casa, um ordenado dos nossos não dá para pagar, tendo em conta que ainda temos água, luz, gás, seguros, blá, blá, blá. No fim do mês estamos a tentar esticar a corda para não entrar em colapso, o que nem sempre é possível.

O trabalho é apenas uma forma de nos lembrar que os sonhos não são para ser vividos, estão lá para nos massacrar.

As pessoas que passaram pela minha vida e que gostavam do trabalho que tinham foram poucas, as que tiveram o trabalho com que sempre sonharam…não conheço nenhuma. Levamos uma existência medíocre em frente a um computador a fazer contas que não gostamos, ou ainda atrás de um balcão tentando esboçar um sorriso que não temos. E confrontados com os sonhos que tivemos acabamos por ficar amargos e frustados.

O casamento ainda que seja com a pessoa que realmente amamos nunca é a vida que idealizámos.

Viver todos os dias com a mesma pessoa cansa.
Porque ninguém é perfeito acabamos por lhe encontrar aquele pormenor de que não gostamos, se juntarmos o stress de termos de uma vida rotineira e falta de dinheiro, a mistura poderá ser explosiva. Discussões, culpas, e em pouco tempo uma das poucas coisas boas que tínhamos na nossa mísera existência deixa de fazer sentido, porque acabou por ser corroída pelo mundo lá fora.

Um filho é um estranho que se apodera do nosso tempo, da nossa vida.

O Alexandre é o melhor filho que alguém pode ter, meigo, doce, sossegado, embora traquina e teimoso, como qualquer criança de 2 anos. Sinto desde o dia em que soube que estava grávida que ele era o “meu milagre”.
Nada que eu possa um dia vir a fazer vai superar a sensação de gerar vida e a responsabilidade que é moldar-lhe a personalidade para o tornar num homem bom e honesto, não peço mais.
Mas desde o dia que ele nasceu que a minha vida nunca mais foi a mesma. Tudo é feito em função dele, as despesas são feitas a pensar nele, todo o mundo gira em torno dele, não por imposição da criança ou porque nós assim o quisemos, mas porque simplesmente assim acontece. Temos os nossos momentos, é claro, mas ainda assim ele está sempre presente.
A mudança é tal que eu não estava preparada para ela.

A responsabilidade é um fardo.

Tenho saudades do tempo em que trabalhava para ganhar dinheiro e o gastava em roupa e viagens. Em que chegava a casa e com uns telefonemas tinha jantar e noitada.
Sinto falta de dançar e beber até á exaustão e pensar que no dia seguinte vou poder resolver a minha ressaca de estore fechado e telefones desligados.

A vida tal como a conheço, dizem, é apenas uma passagem. Uns apelam ao bom comportamento e prometem vida eterna, outros ainda prometem que vamos voltar até atingirmos a perfeição.
Não me parece que isto seja uma boa notícia, porque isso quer dizer que vou ter de passar por todos os bocados maus de novo.

Espero que no fim, e ao pesar na balança as vidas que vivi os momentos bons (que os há) sejam compensatórios.

10 comentários:

Cris... disse...

Gostei muito deste post.
Da sinceridade, da calma com que o contas tudo.
Eu, que tenho essa vida que tu dizes ter perdido, a das noitadas e apagares de telemóvel, não sei se me sinto tão feliz quanto tu quando olhas aquilo pelo que sacrificas teu tempo.
Só posso dar-te os parabéns.

BlueVelvet disse...

Poucas pessoas que conheço teriam a coragem de escrever o que escreveste com esta sinceridade e de forma tão realista.
É uma das coisas que gosto em ti, embora não te conheça.
E mesmo assim tens um sentido de humor brilhante, o que demonstra que és inteligente.
O que te posso dizer para te animar um bocadinho? Que retires de todos os momentos bons tudo o que podes e que aproveites bem o teu filhote, porque até isso passa depressa demais.
Um abraço apertadinho

Gata2000 disse...

Cris, pensa assim, um dia a "minha" vida vai bater-te à porta!

Gata2000 disse...

Blue, é isso mesmo que eu faço para me animar, junto os bocadinhos bons de tudo o que tenho, respiro fundo e faço contas à vida, no fim tenho muito mais do que muitos, tenho um amor incondicional condensado em 87 cm de gente, tenho o meu marido que me atura as neuras com paciência de santo, tenho a minha mãe que se sacrificou a vida inteira por mim, e amigos que me vão dando alento nos momentos maus.

Cris... disse...

Duvido muito, Gata...
É preciso ter uma sensibilidade que eu não possuo.

Gata2000 disse...

Cris, isso é um elogio! Hoje já valeu a pena que tu e a blue já me elevaram o ego até lá muiiiito em cima!

Cris... disse...

Não era apenas um elogio. Era uma constatação de que é fácil trabalhar-se muito quando não nos esperam obrigações em casa.
É fácil ir-se para os copos quando no dia seguinte ninguém nos vai chatear.
É fácil viver "a minha vida".
Mas conjugar isso com a criação de uma família e o crescimento do amor...opá...não me estou a ver.
Parabén, a sério, pa!

TM disse...

Sim a vida é cruel.... tão cruel que mesmo os momentos fantásticos que vivemos parecem encolher face à injustiça que nos sufoca no dia-a-dia....
Mas sabes o que é mais curioso... é que ainda que sentido a sinceridade das tuas palavras, continuo a desejar arriscar... a querer experimentar... a sonhar... a querer simplesmente viver...

Gata2000 disse...

TM-Alguem disse que mais vale ter vivido um dia um grande amor e ter-se magoado, do que nunca ter amado de todo. Eu acho que mais vale viver e ter-se aborrecimentos e termos dias em que nos apetece fugir e largar tudo, do que não viver de todo.

Gata2000 disse...
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