quarta-feira, 18 de março de 2009

A vida perfeita dos objectos inanimados


Embora nunca se tivessem cruzado os seus olhares, embora nunca se tivessem tocados os seus corpos, ela sabia que ao deitar-se às 23 horas o seu telemóvel tocaria passados 10 minutos exactos.

Do outro lado ouviria a voz dele, ordenando-lhe que despisse a camisa de dormir, gesto que ela fazia sem pestanejar.
Dizia-lhe então que se acariciasse, que chupasse os dedos e os levasse húmidos aos bicos dos peitos, que o fizesse até que os sentisse duros, aí deveria morde-los, até que sentisse que estava excitada, que estivesse no ponto de percorrer a barriga, o baixo ventre e de se tocar. Por esta altura estaria bastante molhada e quente.
Agora ouvia-o dizer-lhe que não controlasse a respiração, que ofegante tentava esconder mordendo os lençóis, nada disso, ele queria ouvi-la arfar, gemer, aliás ele queria ouvir tudo, saber que ele estava molhada, ouvi a sua excitação, queria saber que ela estava pronta.

- “Implora”, dizia-lhe
- “Quero ouvir-te implorar. Quero que me peças para te tocar, para te lamber, quero que implores para que te faça vir.”
Ela gemia, já não era capaz de se calar, primeiro um dedo, depois o outro, e no fim vinha-se para ele, gemendo e gritando como sabia que ele gostava, alto para ele sentir o seu prazer do outro lado do telefone.

Um dia ela decidiu meter-se no comboio e visitá-lo, queria vê-lo, tocar-lhe, sem objectos de entremeio. Encontraram-se à beira mar, ele pegou-lhe na mão e sussurrou-lhe baixinho ao ouvido, como se estivessem ainda a falar ao telefone.
-“Vem comigo”

Levou-a a um motel onde a entrada se fazia de carro, estacionou o carro numa garagem que dava acesso a uma escada que desembocava directamente no quarto. Do caminho não se recorda, nem sequer se trocaram palavras, sabe apenas que se despiram com ganas de quem tinha o desejo na ponta dos dedos, para quem a paciência não era um atributo, mas apenas uma perda de tempo.

Desta vez não se falaram, sentiram-se, beijaram-se, tocaram-se, tiraram fotografias e filmaram-se enquanto entrelaçavam os corpos e saciavam uma sede que não conseguiam esquecer, noite após noite. Depois de terem dado largas a uma imaginação acicatada por horas de abstinência era já noite. Ele entrou no banho e pediu-lhe que o seguisse. Ela entrou e saiu, sabia que há relações que não se coadunam com esse grau de intimidade, e a deles ficava à borda da banheira.

Voltou para casa de comboio, trocaram um beijo de despedida e sabia que ao deitar-se às 23 horas o seu telemóvel tocaria exactamente dali a 10 minutos, não mais se voltaram a ver, mas todas as noites se amaram até à véspera do dia do casamento dele.

5 comentários:

Vitor disse...

Eu sempre disse que colocarem escadas em equipamentos públicos pode ser uma coisa má.

Gata2000 disse...

Vitor - Há pois é, ainda te caiem em cima da cabeça e olha, viras Georgete.

Pax disse...

Ao contrário do Vitor, eu acho é que a falta de rampas nos equipamentos privados é que são o problema. O mal foi a banheira :)

Agora a sério: muito sensual.
Uma história com final feliz (a que teve o final triste foi a noiva ;)

Gata2000 disse...

Pax - A relação era baseada num mero objecto, no caso o telemóvel, a banheira, também ela um objecto mostrou-lhe o caminho. A noiva nunca soube, "and what you don't know can't hurt you".

BlueVelvet disse...

Tens noção que escreveste um texto excelente, não tens?
Adorei.
Beijinhos